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Precisamos de bibliotecários agora que temos a Internet?

por Robert Graboyes, para o PBS NewsHour – 24/10/2016

Observe bibliotecários e você vai aprender bastante sobre os médicos do século XXI. As tecnologias digitais estão arremessando ambos profissionais em mundos desintermediados onde eles não são mais os únicos provedores de serviços vitais. Ambos devem mudar suas habilidades ano a ano e provar seu valor dia a dia. Ambos devem escolher entre esta ser uma mudança libertadora ou sufocante.

Minha esposa, Alanna, recentemente aposentou-se após trabalhar 40 anos como bibliotecária. O trabalho dela mudou radicalmente nestes anos. Quando ela começou, bibliotecários eram monopolizadores que juntavam, organizavam e disseminavam fontes preciosas para uma clientela dependente. Na universidade de Columbia, onde ela trabalhava e onde nos conhecemos, estudantes não sobreviveriam sem acesso rápido aos conteúdos cavernosos das estantes. Bibliotecários eram guardiões que determinavam quando um certo estudante poderia possuir fontes essenciais. Eles multavam e davam advertências para quem violasse as regras.

Alanna teve o desejo e a sorte de auxiliar várias bibliotecas a irem para a era digital. Em Columbia, ela ajudou na inspeção da mudança para catálogos online. Milagrosamente, estudantes e acadêmicos poderiam então navegar pelas fontes da biblioteca sem pedir para pessoas no balcão. Os anos se passaram e a Internet erodiu mais ainda aspectos da biblioteca tradicional. Alanna teve papel central em transportar uma companhia da Fortune 500, uma biblioteca pública e duas de ensino médio nesta nova era.

O último projeto dela era supervisionar o design e a construção de uma biblioteca de ensino médio, para ser usada de formas jamais imaginadas quando ela começou sua carreira. Quando o projeto começou meu irmão Arnold – um médico do setor de emergências – perguntou casualmente “por que precisamos de bibliotecas agora que temos a Internet?”

Alanna respondeu, “por que precisamos de médicos agora que temos computadores?”

Ponderando sobre essas trocas de frases, ela concluiu: por séculos, o trabalho do bibliotecário era promover informação escassa para clientes dependentes. Agora, o trabalho está ajudando as pessoas a navegarem a superabundância de informação de uma variedade absurda e de procedência incerta. O novo trabalho, diferente do antigo, requere marketing – bibliotecários devem persuadir clientes que um navegador vale a pena e o trabalho. Para melhor ou pior, a era digital força os experts a explicarem o porquê de uma busca do Google não substituir o bibliotecário e o WebMD não substituir o médico.

Alanna achou essa evolução emocionante. Alguns bibliotecários odiaram. Alguns tem medo disso. E outros simplesmente não a entendem.

Na virada deste milênio, um amigo próximo, Rich Schieken, se aposentou depois de uma carreira de 40 anos como cardiologista pediátrico e professor de medicina. Ele me disse que estava satisfeito em estar parando.

“Por que?” perguntei, “pensei que você amasse o seu trabalho”.

A resposta do Rich foi mais ou menos assim: “eu amo sim, mas meu mundo mudou. Quando comecei, os pais me traziam seus filhos doentes e que estavam morrendo para mim. Eu dizia “é isso o que faremos” e eles diziam “sim, doutor”. Hoje em dia, eles trazem 300 páginas de impressões de internet. Quando eu ofereço um prognóstico e sugiro tratamento, eles mostram os papéis e perguntam “por que não isso ou aquilo?”. Ele ainda disso “não me entenda mal. Esse novo mundo é melhor que o antigo. Só demoraremos mais um pouco a nos acostumarmos com ele”.

O cardiologista Eric Topol escreve muito sobre como tecnologias convergentes estão democratizando a medicina. Com aplicativos baratos de smartphone, pacientes podem checar infecções nos ouvidos de seus filhos, diferenciar entre bronquite e pneumonia, e performar uma miríade de outros serviços que antes era de domínio exclusivo de médicos. Um paciente com fibrilação atrial pode usar um smartphone e um pequeno AliveCor periférico para fazer um eletrocardiograma em 30 segundos (eu mesmo tenho um no meu iPhone).

Pondere isso por um momento: Topol argumenta que o smartphone logo irá ser o dispositivo mais importante na história da medicina e que, aliviado de tarefas repetitivas, os médicos poderam ser livres para usarem suas mentes e talentos onde eles são realmente indispensáveis.

Alan Greene, diretor médico da startup de um dispositivo diagnóstico chamado Scanadu, disse sobre o supercomputador Watson da IBM: “acredito que algo como o Watson será em breve o melhor diagnosticador do mundo – seja máquina ou humano. Na medida que a tecnologia [de inteligência artificial] está melhorando, uma criança nascida hoje raramente precisará ver um médico para ter um diagnóstico até se tornarem adultos”.

O otimismo tecnológico de Greene é provavelmente um pouco mais poderoso que o meu. Mas acredito que alguma versão da medicina democratizada de Topol e as bibliotecas democratizadas de minha esposa irão prevalecer e dominar este século – e que, em última análise, médicos, bibliotecários e suas clientelas estarão melhores com isso.

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